Ajudando a ajudar

Há alguns meses recebi um convite repentino de uma amiga da faculdade, Gabriela Bouzada, que perguntou sobre minha disponibilidade para dali a 3 dias para fotografar uma “intervenção urbana” que seria realizada por ela e mais um grupo de amigos em uma rua aqui de Belo Horizonte. Inicialmente nem sabia direito do que se tratava. Desde já estava ciente de que o trabalho não seria remunerado, contando, portanto, apenas com minha boa vontade como voluntário. Mesmo sem o estímulo financeiro, resolvi que não custava nada emprestar minha mão-de-obra a quem precisava e, afinal, era também uma oportunidade para praticar minha fotografia de uma nova maneira. Fora isso, eu não esperava mais nada. A proposta de intervenção consistia na distribuição gratuita de flores a motoristas e pedestres, a troco apenas do que costumava vir como retribuição na forma de uma expressão de surpresa pelo presente recebido e um sorriso de quem provavelmente esperava ter de pagar por aquilo e inicialmente havia recusado, quase sem jeito ao perceber que se tratava de uma gentileza. Nascia assim a primeira intervenção urbana do Coletivo Dedos Verdes: “Uma Flor Ameniza Uma Dor”.

Antes de falar mais sobre minha experiência particular como fotógrafo voluntário no grupo, gostaria de explicar um pouco sobre ele para inteirar aqueles que estão tão perdidos quanto eu estava quando o primeiro convite me foi feito. Pego emprestado a descrição contida na própria fanpage do grupo no Facebook:

“Inspirado no livro ‘O menino do dedo verde’, o coletivo de intervenções urbanas Dedos Verdes vem transformar o delírio de uma cidade mais florida e feliz em realidade. O livro conta sobre um menino questionador que, com seu dedo verde, levava flores e alegria por onde quer que passasse.
Nosso coletivo conta sobre intervenções feitas por dedos verdes. Ações que abrem espaço para um novo horizonte possível e positivo.”

Após a realização da primeira ação, algum tempo depois outras duas intervenções foram agendadas para o mesmo dia, na estação rodoviária de Belo Horizonte: “Um Sonho por Um Sonho” e “Jogo Conversa Fora”. A primeira consistiu em uma troca simples: a pessoa abordada deveria escrever algum sonho (desejo) que possuía, recebendo um sonho (doce) como retribuição simbólica; já a outra intervenção que ocorreu paralelamente foi projetada como um “cantinho aconchegante” onde passageiros podiam se sentar para um bate-papo descontraído e descompromissado com integrantes do grupo, pelo tempo que desejassem. O grupo já realizou intervenções até mesmo fora de Belo Horizonte, levando para outras cidades o exemplo do que se iniciou aqui.

Como fotógrafo, passei por uma experiência inédita ao registrar algo na rua, sem qualquer tipo de controle sobre o ambiente e sem saber o que vinha pela frente. Por mais que casamentos e festas sejam ambientes com alguns eventos não-controlados em seu decorrer, a fotografia de rua é completamente diferente, pois não há um “roteiro pré-estabelecido” que o fotógrafo possa tomar como guia para seu direcionamento ao longo do trabalho. Como ser-humano, por outro lado, me deparei com uma situação um tanto quanto curiosa e interessante ao acompanhar e registrar a reação das pessoas diante de algo totalmente inesperado nos dias de hoje – algo que se tornou raro em nossa sociedade, na verdade -, que consiste apenas em um gesto de gentileza que não exige nada em troca. Estamos acostumados a um mundo em que a sociedade cobra mais do que oferece e as pessoas se tornaram cada vez mais mesquinhas. Ver pessoas distribuindo flores em troca de sorrisos (que nem mesmo foram pedidos em troca), por exemplo, nos faz pensar sobre muitas de nossas atitudes no dia-a-dia. Foi, sem sombra de dúvidas, uma experiência totalmente enriquecedora para mim e que me provocou muitas reflexões (e continua provocando a cada nova intervenção). Para quem não esperava nada inicialmente antes de topar a participação como voluntário no projeto, posso dizer que foram meus trabalhos mais bem-remunerados até hoje.

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Para conhecer mais sobre o grupo, ver mais fotos e acompanhar seus projetos (ou, quem sabe, até mesmo se voluntariar para participar de algum!), aí estão os links:

Coletivo Dedos Verdes – Facebook

Galeria de Fotos: “Uma Flor Ameniza Uma Dor”, “Jogo Conversa Fora” e “Um Sonho por Um Sonho”

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